O Brasil é um dos mercados mais promissores para as grandes
grifes. Mas cuidado: hoje, nada é mais cafona do que ostentação

Dirigir um conversível em alta velocidade pelas marginais de São Paulo;
vestir-se com logomarcas à vista, das meias à gravata; tirar férias em um
monumental resort com piscinas de ondas em Dubai ou andar de carro híbrido,
misturar peças de grifes com itens de lojinhas despretensiosas e calçar suas
Havaianas e se mandar para uma pousada de charme numa praia deserta no Quênia ou
no sul da Bahia? “Há um novo conceito de luxo, um significado mais íntimo muito
relacionado com a experiência, não somente com a posse”, diz a espanhola María
Eugenia Girón, consultora do mercado de luxo na Europa e autora do livro Inside
Luxury. “Por que pagar três ou quatro vezes mais pela primeira classe em um voo
de quatro, cinco horas, se o serviço vai ser minimamente melhor? Mais
interessante é investir o dinheiro em um hotel no qual a experiência seja
inesquecível”, completa. Ou seja: gastar no que se gosta é muito mais elegante
do que adquirir para acumular e ostentar.
O Brasil representa apenas 0,7% do mercado mundial consumidor de marcas
premium, mas é uma espécie de Santo Graal das Américas. Em pesquisa divulgada
pelo instituto Euromonitor Internacional, que analisou o consumo em 26 países,
como França, Alemanha, Japão, China e Estados Unidos, nosso país apresentou, de
2005 a 2010, um dos maiores índices de crescimento dentro desse mercado, com
19%. Só no ano passado, gerou-se aqui um lucro de 1,9 bilhão de euros, de acordo
com a consultoria de análise de Mercado Bain & Company, que classificou o
Brasil, junto com a China, como os pontos no mapa que mais oferecem opção de
crescimento imediato. Ermenegildo Zegna, Hermés, Prada, Gucci, Rolls Royce (que
chega ao país em 2012), Ferrari e hotéis da rede Aman (que tem planos de
construir uma unidade na Bahia), considerados o topo da pequena e reluzente
pirâmide do luxo, já notaram isso e dirigem crescente atenção a nós. Mas além de
termos uma economia aquecida, dinheiro sobrando e muita vontade de gastá-lo, o
que nos diferencia de outras nações novo-ricas, como Rússia e Índia?
Para Suzy Menkes, editora de moda do International Herold Tribune, versão
internacional do jornal americano New York Times, a característica mais marcante
do brasileiro é a busca pela máxima excelência no serviço. “Brasileiros mimam
muito os clientes. Para eles, isso faz parte da experiência do luxo e se tornou
essencial”, disse na última edição do Hot Luxury, um dos maiores eventos do segmento, que ocorreu em São Paulo, em novembro. “O brasileiro gosta de
chegar no hotel e ver que seu vinho e seu prato prediletos já estão à
disposição. Ou ir a um restaurante e ter sua mesa favorita automaticamente
reservada”, explica Antonio Parrella, diretor de atendimento da GfK,
consultoria alemã que recentemente realizou uma pesquisa sobre os hábitos do
consumidor brasileiro. Exemplo de mimo que entrou em nossa vida, encarado como
algo cotidiano apesar de não ser, é o vallet parking — em que outra capital do
mundo você sai para tomar chope e, em vez de estacionar a dois quarteirões do
bar, deixa seu carro na mão de um desconhecido? E ainda paga, aliviado, pelo
serviço?
Outra característica bem brasileira apontada por Suzy é a mistura de grifes
nacionais e internacionais nos centros de comércio de luxo, como os shoppings
Cidade Jardim e Iguatemi e a multimarcas Daslu, todos em São Paulo. Segundo a
pesquisa de Sanford Bernstein, consultoria americana, nós nutrimos orgulho por
certas grifes, principalmente aquelas que fazem sucesso no exterior, como
Havaianas, Osklen e H.Stern. “Os chineses, os mais ávidos compradores do mundo
atual, preferem peças de marcas famosas, com logotipos grandes. Querem, acima de
tudo, ostentar”, diz José Neves, fundador do site de moda Farfetch. Ainda não
aprenderam que não há nada mais brega que o deslumbramento…
“Chique é investir na qualidade”
María Eugenia Girón, consultora de mercado de luxo na Europa, professora
associada da IE Business School e autora do livro Inside Luxury dá as dicas do
que é deveras fino
O
que é o luxo hoje?
A combinação de duas ideias: o produto autêntico, de qualidade, ao lado da
vontade de viver uma experiência. A peça não é mais somente algo – as pessoas
compram também o conceito atrelado a ela. “Ter” anda junto com “vivenciar”. O
consumidor mais sofisticado quer saber o que torna o produto único, de onde vem,
o que é, como foi feito. Isso é que lhe dá o valor.
Quem é o principal consumidor do segmento ?
São pessoas de várias gerações, bem-informadas, conectadas por meio da
tecnologia, que trocam informações. Isso está moldando o mercado. É nisso que as
marcas estão focando, em sua interface digital. Na China, por exemplo, a riqueza
está na mão dos mais jovens: 80% da população com mais de um milhão de dólares
tem menos de 45 anos.
Basta ter dinheiro para ser considerado um consumidor
premium?
Não. O que transforma alguém em consumidor
premium é saber as razões
do valor de um produto. E após conhecê-las, não mais voltar atrás. Se passar por
uma crise, pode até diminuir a frequência, mas não deixará de consumir.
O que é ser elegante hoje?
Houve um tempo em que não se pensava sobre o que se comprava e se comprava
demais, qualquer coisa. Hoje, principalmente na Europa, a elegância tem a ver
com a história e a qualidade do que é feito. Por exemplo, a Hermès: ali tudo é
feito artesanalmente, nada é terceirizado e as peças certamente vão ficar de
herança para sua próxima geração. Chique é investir na qualidade e na
durabilidade do que se compra.
Fonte: http://revistaalfa.abril.com.br/estilo-de-vida/luxo/o-verdadeiro-luxo/
Juliene Moretti 14h45 19/12/2011